
Capítulo 4: Sempre Cercado
O tempo parecia implacável para Júlio. Agora, ele carregou uma recompensa temida, e o poder que um dia lhe trouxe orgulho começou a se transformar em uma carga sombria. Cada esquina, cada viela da Zona Sul parecia habitada por sombras de antigos amigos, agora convertida em ameaças. O peso do tráfico, dos segredos e das traições que cresceram ao seu redor fazia com que cada passo fosse marcado por uma inquietação sufocante. Ele sabia que, quanto mais se mantivesse à frente, mais solitário e vulnerável se tornaria.
Em uma noite tensa, Júlio se reuniu em um galpão abandonado com alguns desses rostos familiares, onde costumavam armazenar as mercadorias. Entre eles Além de Rodrigo estava Zequinha, parceiro dos tempos de escola e um dos poucos que ele ainda considerava confiável. Zequinha, com o boné sempre puxado para baixo, mexia nos dedos com nervosismo, lançando olhares desconfiados aos outros presentes.
— E aí, Zequinha? Tá encanado com o quê, mano? — Júlio pediu, quebrando o silêncio incômodo.
Zequinha olhou ao redor, hesitante.
— Nada não… Só que o clima tá estranho demais, Júlio. Parece que o mundo todo está só esperando uma chance pra você cair. Estou falando sério, parceiro. Até eu sinto essa tensão.
Júlio soltou um riso seco, mas a amargura na sua expressão traía a tranquilidade fingida.
— Isso eu já sei, Zequinha. Mas a questão é… de quem a gente precisa desconfiar? — Ele olhou em volta, fixando o olhar nos homens ao seu redor.
Neguinho, outro que também cresceu com ele nas mesmas ruas, manteve-se calado, os olhos evitando o contato direto. Júlio notou a inquietação no comportamento do amigo e decidiu confrontá-lo.
— Qual foi, Neguinho? Você é estranho. Tá tudo certo com você? — Júlio questionou, sem rodeios.
Neguinho hesitou, desviando o olhar antes de responder com um tom resignado.
— Tem uns papos na quebrada, mano… Dizem que o Cobra tá oferecendo uma bolada pra quem sair do seu lado e correr com ele. E você sabe como é, né? Quem tem mais a oferecer é quem manda.
As palavras atingiram Júlio como um soco. Cobra, um dos traficantes rivais mais perigosos, sempre fora uma ameaça distante, mas agora, a promessa de aliança e dinheiro tornava-o uma ameaça iminente. Júlio sabia que, se não agisse rápido, a desconfiança se tornaria uma realidade traiçoeira.
Neste momento, Rodrigo, seu fiel braço direito, entrou no galpão com uma expressão grave. Ele já sabia dos rumores, mas esperou pacientemente para dar seu aviso.
— Júlio, os homens estão tão cercando a quebrada. Essa semana mesmo veio duas vezes. A polícia bateu em cima do Júnior e do Vinícius — disse Rodrigo, acendendo um cigarro, sem tirar os olhos dos outros homens.
— E as mercadorias? Tudo seguro? — Júlio pediu, dirigindo-se a Zequinha.
Zequinha concordou com um aceno de cabeça, mas o medo em seu olhar era evidente.
— A última carga escapou, mas da próxima… eles prometeram que vão até o fim, Júlio. Ninguém mais se sente seguro aqui — respondeu ele, a voz embargada.
Júlio fechou os olhos por um instante, tentando buscar a calma que lhe escapava. Sentiu, mais que nunca, o peso das decisões que o trouxe até ali. Pela primeira vez, um calafrio percorreu seu corpo — não o medo de morrer, mas o medo de perder a si mesmo na escuridão desse mundo.
Rodrigo, percebendo a angústia de Júlio, colocou a mão em seu ombro.
— Já pensei em dar um tempo, cara? Sai dessa, nem que seja por um tempo. Todo mundo sabe que você está marcado.
Júlio desviou o olhar, soltando o ar pesadamente. Até pouco tempo, prolongar o tráfico seria impensável, uma rendição que jamais consideraria. Mas algo dentro dele começou a mudar, como uma voz silenciosa que pedia um novo caminho.
— Já estou pensando… mais do que você imagina, Rodrigo. Até procurarei ajuda, alguém pra me guiar pra outro lado. E é por isso que eu preciso saber com quem posso contar — disse Júlio, encarando os homens ao seu redor.
Zequinha balançou a cabeça, concordando em silêncio. Rodrigo ficou firme ao seu lado. Neguinho, porém, soltou um suspiro debochado.
—Vida nova? Sai dessa, Júlio. Aqui ninguém perdoa. Você acha que vai te deixar sair assim, fácil? Se não for o Cobra, vai ser a polícia ou até os próprios mãos da quebrada — disse ele, com desdém.
Rodrigo avançou um passo, encarando Neguinho.
— Respeite o homem, Neguinho. Quem tá fraco aqui é você, com essa cara de quem tá só esperando uma brecha pra pular fora.
Antes que a situação se intensifique, Júlio estendeu a mão, pedindo calma.
— Se eu não posso confiar em mim, então nada disso faz sentido — ele declarou, com uma sinceridade pesada. — Eu estou em busca de um novo caminho. Quem quiser vir comigo, vem pra construir. Senão, você pode seguir o seu, mas escolher o logotipo. Não vou morrer por uma vida que não faz mais sentido.
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