A violência nunca foi uma escolha, mas uma imposição na
vida de Júlio, uma sombra que o perseguia desde a infância nas ruas da
comunidade. O que começou como furto inofensivo, quase brincadeiras,
rapidamente escalou para algo muito mais sombrio. Assaltos passaram a ser a
forma mais rápida de ascender no submundo do crime, enquanto o assassinato
tornou-se uma ferramenta amarga, porém necessária, para sua sobrevivência.

Lembrava-se com clareza do primeiro roubo. Era uma
noite sufocante, o calor misturado com o medo fazia o suor escorrer por sua
testa. A loja de conveniência, um lugar que deveria ser seguro, virou palco de
sua primeira transgressão. Naquela época, ele não estava sozinho. Ao seu lado
estava Ronaldo, um amigo de infância, e Rodrigo que ele considerava um primo. O
trio era jovem, mas as circunstâncias os envelheciam rapidamente.

— Vai lá, Júlio, — sussurrou Rodrigo, empurrando-o em
direção à porta da loja. — A gente te dá cobertura.

O plano parecia simples, mas Júlio sentia o peso da
arma nas mãos, como se fosse uma extensão de sua própria culpa. A adrenalina o
dominava, e tudo se passou em um borrão. O medo, a necessidade de ganhar
respeito, o olhar aterrorizado do atendente… Foi o primeiro passo em um
caminho que logo se tornaria mais escuro.

Com o tempo, aquele medo que o consumia deu lugar à
frieza. Os assaltos tornaram-se frequentes, cada vez mais audaciosos. Ronaldo,
que antes parecia hesitar, agora liderava a equipe em muitos golpes, sempre com
um sorriso cínico no rosto. Era ele quem sugeria os alvos mais ousados, como o
posto de gasolina que assaltaram em uma madrugada silenciosa. Para Ronaldo, o
crime era um jogo de poder e inteligência. Para Júlio, era um meio de
sobrevivência.

O grupo cresceu, e novos membros começaram a surgir.
Entre eles, surgiram Tico e Cléber, dois jovens que admiravam a ascensão de
Júlio. Os dois eram impetuosos, com uma sede de provar seu valor, o que muitas
vezes colocava o grupo em situações arriscadas. Em uma dessas, ao assaltarem um
caminhão de carga, a coisa quase saiu do controle. Tico, nervoso, disparou um
tiro acidental que ressoou como um prenúncio do caos que viria.

— Que merda você fez? — Júlio rosnou, agarrando Tico
pelo colarinho enquanto eles corriam para o carro. — Isso não era pra ter
acontecido!

 

Tico tremia incapaz de responder. O incidente abalou a
confiança do grupo, mas também marcou o momento em que Júlio começou a se ver
como algo mais do que um simples assaltante. Ele era um líder, alguém que
ditava o ritmo do caos, e isso trazia consigo um preço alto.

Foi nesse momento que a violência cruzou a linha
final. Não bastava mais roubar; era necessário eliminar ameaças. O primeiro
assassinato aconteceu numa noite chuvosa, dentro de um bar onde Júlio costumava
fechar negócios. Seu alvo era Otávio, um traficante local que ousou desafiar
sua autoridade. Havia rumores de que Otávio planejava uma emboscada, e Júlio
sabia que, naquele mundo, hesitar significava morrer.

Ele foi até o bar com Ronaldo e Rodrigo. As palavras
trocadas foram poucas, e o som do tiro pareceu engolir todo o ar ao redor. O
silêncio que se seguiu foi o que mais o marcou. Pela primeira vez, Júlio havia
tirado uma vida, e em vez de alívio, sentiu um vazio imenso.

Com o passar do tempo, os assassinatos tornaram-se
rotineiros. Havia sempre alguém que ameaçava seu império, e cada morte era uma
reafirmação de seu poder. Porém, dentro dele, o preço emocional era evidente.
Ronaldo, que outrora era seu parceiro inseparável, começou a manter distância.
A frieza de Júlio assustava até mesmo seus aliados mais antigos. Ele não era
mais o garoto que cometia pequenos furtos; agora, era uma figura temida e
isolada, uma sombra de si mesmo.

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