Ao longo dos meses, Júlio foi se aproximando de Raul e do círculo de Marcos. Sandra, a irmã mais velha, que aos 18 anos já havia conhecido a escuridão das vielas da comunidade enquanto fumava um baseado e beijava seus ficantes, tinha se tornado uma evangélica fervorosa. No último ano do colegial, ela passava o dia tentando manter a ordem na casa, mas já havia se cansado de discutir com os irmãos mais novos sobre as consequências da vida no tráfico.
Em uma noite, quando Júlio voltou para casa com a camisa ensanguentada após uma briga com rivais, Sandra perdeu a paciência.
— Júlio, cê quê ser como o Marcos? Quê roubar, matar e aterrorizar a vizinhança? — Ela segurava o ombro dele com força, mas Júlio desviou o olhar. — Ou passar o resto da vida preso igual nosso pai?
— Melhor do que viver sem nada, Sandra, — ele respondeu, com um olhar amargo. — Aqui nesse lugar o quê mais tem pra fazer?
Sandra, com o coração apertado, tentou mais uma vez alcançar o irmão com palavras de esperança.
— Júlio, você ainda é um menino, tem que estudar, jogar bola e escolher uma profissão. — Ela o abraçou com carinho na esperança de convencê-lo.
Mas Júlio, com muito ressentimento e ódio na voz, respondeu:
— Acorda, minha irmã, pra preto o único caminho é o crime!
Ele deu as costas para a irmã e saiu apressado, deixando Sandra com lágrimas nos olhos e uma sensação de impotência. A luta de Sandra para salvar seu irmão do destino que parecia inevitável era um reflexo da batalha diária enfrentada por muitas famílias na comunidade. A esperança de um futuro melhor era constantemente desafiada pela dura realidade das ruas.


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